ISSN: 1679-4427 | On-line: 1984-980X

Estágio e supervisao em plantão psicológico on-line na pandemia: desafios a partir da perspectiva fenomenológico-existencial

Internship and supervision in on line psychological duty in the pandemic: challenges from the phenomenological-existential perspective

Prácticas y supervisión en el plantado psicológico en la pandemia: desafíos desde la perspectiva fenomenológico-existencial

Cybele Moretto1; Sonia Nukui2; Valeria Antunes3

DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/1679-4427.v16n29.0004

1. Psicóloga, Mestre e Doutora em Psicologia pela PUC-CAMP, Professora Titular e Supervisora de Estágio da Universidade Paulista (UNIP/Sorocaba)
2. Psicóloga, Mestre pela Universidade Metodista, Coordenadora-Auxiliar do Curso de Psicologia da Universidade Paulista (UNIP/Sorocaba)
3. Psicóloga, Mestre e Doutora, Coordenadora-Auxiliar da Clínica de Psicologia Aplicada da Universidade Paulista (UNIP/Sorocaba)

Resumo

Este trabalho tem por objetivo apresentar as principais contribuições e desafios de um estágio de um Curso de Psicologia e sua supervisão em plantão psicológico online durante a pandemia COVID-19, a partir da perspectiva fenomenológico-existencial. Pretende-se, ainda, articular com a experiência de atendimentos clínicos e contribuir para a compreensão e instrumentalização de trabalhos desenvolvidos nesta área. O estudo parte da atuação profissional de uma equipe de professoras-orientadoras de estágio, com experiência em atendimentos clínicos presenciais e remotos, prática da docência e supervisão em Ensino Superior, além de condução de pesquisas. Traz ainda recortes clínicos do atendimento realizado na modalidade de Plantão Psicológico on-line.

Palavras-chave: Estágio curricular. Plantão Psicológico. Psicologia Fenomenológica-Existencial. Supervisão. Docência.


Abstract

This work aims to present the main contributions and challenges of a curricular internship of a Psychology Course and its supervision in online psychological on-call during the COVID-19 pandemic, from a phenomenological-existential perspective. It is also intended to articulate with the experience of clinical care and contribute to the understanding and instrumentalization of work carried out in this area. The study is based on the professional performance of a team of internship supervisors, with experience in in-person and remote clinical care, in addition to teaching and supervising in Higher Education, and conducting research. It also brings clinical clippings of the care provided in the online Psychological modality.

Keywords: Curricular internship. Psychological Duty. Phenomenological-Existential Psychology. Supervision. Teaching.


Resumen

Este trabajo tiene como objetivo presentar los principales aportes y desafíos de una pasantía curricular de una Carrera de Psicología y su supervisión en guardia psicológica en línea durante la pandemia COVID-19, desde una perspectiva fenomenológico-existencial. También se pretende articular con la experiencia de la atención clínica y contribuir a la comprensión e instrumentalización del trabajo realizado en esta área. El estudio se basa en el desempeño profesional de un equipo de supervisores de prácticas, con experiencia en atención clínica presencial y remota, además de impartir docencia y supervisión en Educación Superior, y realizar investigaciones. También trae recortes clínicos de la atención brindada en la modalidad de Guardia Psicológica en línea.

Palabras clave: Prácticas curriculares. Deber Psicológico. Psicología Fenomenológico-Existencial. Supervisión. Docencia.

 

Introdução

Com o surgimento da pandemia causada pela COVID-19 em todo o mundo, a formação profissional em saúde assim como a assistência a comunidade decorrente dos estágios práticos supervisionados, passaram a seguir novos protocolos, ocorrendo de forma remota com o auxílio de plataformas digitais, sendo um desafio as intervenções devido aos critérios éticos preconizados na formação em Psicologia. Portanto, em nossa prática clínica enquanto professoras-orientadoras supervisionamos o estágio remoto “Plantão Psicológico” - apoiadas nas recomendações da publicação do Conselho Federal de Psicologia (CFP) e da Associação Brasileira de Ensino de Psicologia (ABEP) intitulado “Práticas de estágios remotos em Psicologia no contexto da pandemia da Covid-19” (2020).

Cabe apontar que os estagiários realizaram por meios de tecnologias da informação e da comunicação os atendimentos psicológicos e foram devidamente supervisionados por meio das atividades sincrônicas, aquelas em que a participação de estudantes e professoras/es acontece simultaneamente, em tempo real e no mesmo ambiente de aprendizagem.

Por todo o exposto evidencia-se uma forma inovadora de atendimento psicológico apresentando como um serviço que está à disposição das pessoas que necessitam de atendimento de emergência, buscando oferecer um espaço de escuta e acolhimento diante do sofrimento que se apresenta. Portanto, as experiências clínicas enquanto professoras orientadoras suscitaram algumas reflexões sobre formação da atitude clínica/manejo terapêutico dos estagiários.

 

1 PRÁTICA PSICOLÓGICA SOB O VIÉS DO PLANTÃO PSICOLÓGICO

Merleau Ponty (1999) sabiamente nos convida a ir ao encontro dos fenômenos e para isso afirma que será preciso escutar as pessoas em suas dificuldades existenciais para que não se tenha a ‘percepção auditiva’ do som articulado, mas que o mesmo ressoe dentro do terapeuta “ele me interpela e eu ressoo, ele me envolve e me habita a tal ponto que não sei mais o que é meu, o que é dele” (p.51).

Contextualizar a experiência clínica enquanto professoras orientadoras em uma clínica-escola em um contexto de pandemia causada pela Covid-19 é necessariamente percorrer um caminho pautado pela esperança. Portanto, lançar-se e projetar-se para um novo rumo no que diz respeito a proposta do plantão psicológico passa necessariamente por uma história de encontros humanos que aconteceram em um ambiente virtual. E, nessa trama existencial de encontros a esperança se apresentou como forte aliada entre professoras orientadoras, estagiários e pacientes.

O plantão psicológico on-line é uma prática psicológica supervisionada por um professor orientador que acolhe as questões trazidas pelos estagiários e os auxiliam a desenvolverem competências que são desenvolvidas a partir das seguintes habilidades: intervenção de forma imediata na brevidade que caracteriza o encontro; interpretação compreensiva de manifestações verbais e não verbais como fonte primária de acesso à subjetividade; avaliação e decisão sobre a conduta e/ou encaminhamento mais adequado em sua especificidade, e a cada cliente na singularidade de sua demanda e interlocução com outros profissionais sempre que necessário.

Tal como já apontado o plantão psicológico ocorreu em um ambiente virtual e esteve para além de uma queixa, alicerçado nas atitudes terapêuticas escuta e acolhimento buscando proporcionar abertura ao desconhecido que se apresentou naquele momento. Portanto, renunciando as interpretações prévias o estagiário-terapeuta acolhe os afetos, significações que aquela existência apresenta em seu modo de ser e de estar no mundo. Dessa forma, a atitude clínica reside no encontro, e a relação terapêutica torna-se algo a ser construído, assim possibilitando que o indivíduo encontre em si os recursos necessários para lidar com as questões que o angustiam.

A experiência do Plantão Psicológico on-line se constitui enquanto algo inovador e inventivo ao proporcionar ao estagiário entrar no campo das afetações, tocar e ser tocado pelas adversidades humanas e descobrir a potência terapêutica da escuta.

Ressalta-se que antes dos estagiários iniciarem a prática clínica online surgiram algumas inquietações, pois em nossas discussões surgiram sentimentos de incapacidade, insegurança medo e, em especial, frustração por não poderem realizar o estágio prático presencial. Portanto, evidenciou-se que estagiários e professoras orientadoras tinham uma tarefa que se pautava na construção de sentidos e significados. Durante as discussões clínicas fundamentada nas referências bibliográficas básicas e complementares tornaram-se notório os sentimentos de insegurança, ansiedade e frustração gerados nos estagiários, em especial, pelo fato. Desse modo, tornou-se necessário que antes dos estagiários iniciarem os atendimentos psicológicos, seria imprescindível enquanto professoras orientadoras oferecer um espaço de escuta e acolhimento para que os estagiários pudessem dividir seus temores e anseios frente ao novo que se anunciava em decorrência da Pandemia do Covid-19.

1.1 Plantão Psicológico em seu desvelar clínico

Objetiva-se tecer considerações a respeito do Plantão Psicológico online que se constitui como uma forma inovadora de atendimento breve e apresenta-se como um serviço que está à disposição das pessoas que necessitam de atendimento de emergência, buscando oferecer um espaço de escuta e acolhimento diante do sofrimento que se apresenta. Acentua-se a importância da supervisão sob a perspectiva fenomenológico-existencial que se constitui sobremaneira como condição sine qua non para a formação da atitude clínica dos estagiários-terapeutas.

Para Mahfoud (1987), o Plantão Psicológico apresenta-se como uma nova modalidade de atendimento clínico criado a partir da atenção à centralidade da pessoa. Esta prática clínica surgiu da importância de se ter um espaço para as pessoas, muito mais do que para os problemas promovendo, assim, a consciência de si e da realidade, levando a pessoa a discriminar os diferentes recursos disponíveis. Nas palavras de Morato et al. (2009), o Plantão Psicológico se constituiu como uma das modalidades do aconselhamento psicológico tendo por objetivo a atenção e o cuidado ao sofrimento existencial. Iniciou-se no Serviço de Aconselhamento Psicológico do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo e foi idealizado por Rachel Rosenberg e Oswaldo de Barros Santos, em 1969, inicialmente, fundamentado na perspectiva de Rogers, ou seja, na abordagem centrada na pessoa. Devido ao aumento de demanda da clientela, por volta de 1990 foi imperativo abrir-se à diversidade, pluralidade e singularidade, contextualizando a compreensão de Plantão Psicológico como atento à realidade experiencial do demandante, para também contemplar as dimensões antropológica, sociológica e política da cultura atual. Portanto, passou a fundamentar-se na perspectiva fenomenológico-existencial. Ainda de acordo com esses autores pensar numa ação psicológica pautada sob o viés da abordagem fenomenológico-existencial é necessariamente ir ao encontro do sofrimento existencial por meio de uma escuta clínica que implica em um ouvir radical. Portanto, no plantão psicológico o ouvir se constitui como abertura para acompanhar o outro na expressão do seu sofrimento, possibilitando ressignificações sobre o sentido do existir.

Sabe-se que a Psicologia passa por grandes modificações. Fiorini (1989) alerta que a realidade de um atendimento mais social levou a repensar a prática da psicoterapia clássica. Portanto, houve um movimento para criar terapêuticas breves já que as técnicas mais clássicas de longa duração não contemplam de forma abrangente as necessidades de algumas pessoas que buscam por atendimento psicológico, quer seja em relação ao tempo empreendido, quer em relação ao custo financeiro.

Corroborando tais ideias, Figueiredo (1991) menciona que as psicologias contemporâneas se preocupam com os problemas da contemporaneidade, contudo, ocorre muita pouca reflexão, pois costuma-se reduzir as questões éticas a questões que parecem triviais e formais. Desse modo, as verdadeiras questões éticas dizem respeito às posições básicas que cada sistema ou teoria ocupa no contexto da cultura contemporânea, diante dos desafios que dela emanam.

1.2 Supervisão clínica sob o olhar da perspectiva fenomenológico-existencial

Para fundamentar nossas reflexões, recorremos às considerações de Gonçalves e Belmino (2017), ao mencionarem que a atuação do psicólogo no contexto de atendimento on-line, devido a pandemia de Covid-19, clama por um novo manejo terapêutico, por um novo setting terapêutico, ou seja, faz-se necessário adaptar-se a essa forma de fazer psicologia. Eles ainda ressaltaram que não é de hoje que a tecnologia vem crescendo e provocando mudanças na sociedade, que por sua vez, precisa estar sempre se adaptando e acompanhando essas evoluções, com a psicologia não é diferente, ao passo que o mundo tecnológico cresce, ela também precisa se reinventar. A tecnologia cria modos de se relacionar, ela instiga novas formas de pensar, de se expressar e de viver a subjetividade, dessa forma, não é possível separar o homem da técnica, pois ela faz parte da humanidade.

Corroborando com tais apontamentos Evangelista e Cardoso (2021) apontam que será necessário estar disponível e preparado para acolher o novo da forma que ele vier e como ele vier. Tal movimento faz parte de seu modo de estar no mundo, que é composto por inúmeros aspectos, como diz Critelli (2012) a nossa identidade é construída a todo momento, cada vivência e experiência compõe o modo como nos colocamos no mundo. Tendo como referência as considerações dos autores supracitados lançamo-nos juntamente com nossos estagiários ao encontro de um novo modo de se realizar o principal objetivo da ciência psicológica que é a promoção da saúde.

Há que se considerar que, de acordo com o Código de Ética da Psicologia (2005), sempre que alguém busca o atendimento psicológico, seja em quaisquer áreas de atendimento, está procurando por ajuda para prevenir dificuldades emocionais ou recuperar sua saúde mental. Assim, o psicólogo deve utilizar seus conhecimentos para contribuir para a promoção de mais qualidade de vida. Ao se falar em Promoção da Saúde, cabe recorrer à carta de intenções desenvolvida na primeira Conferência Internacional sobre a Promoção da Saúde, realizada em Ottawa, no Canadá (1986). Neste documento apresenta-se uma definição para Promoção da Saúde, a saber: Promoção da Saúde é o nome dado ao processo de capacitação da comunidade para atuar na melhoria de sua qualidade de vida e saúde, incluindo uma maior participação no controle deste processo. Para atingir um estado de completo bem-estar físico, mental e social os indivíduos e grupos devem saber identificar aspirações, satisfazer necessidades e modificar favoravelmente o meio ambiente. A saúde deve ser vista como um recurso para a vida, e não como objetivo de viver. Nesse sentido, a saúde é um conceito positivo, que enfatiza os recursos sociais e pessoais, bem como as capacidades físicas. Assim, a promoção da saúde não é responsabilidade exclusiva do setor saúde, e vai para além de um estilo de vida saudável, na direção de um bem-estar global.

Complementa-se afirmando que, o Plantão Psicológico trata-se de um apoio emergencial diante do sofrimento que se apresenta, objetivando a promoção da saúde ao acolher e escutar as demandas, sobretudo respeitando a condição e escolhas subjetivas de cada pessoa que procura pelo atendimento. Furigo (2006) aponta que o serviço de Plantão Psicológico permite a procura espontânea em momentos de crise promovendo o bem-estar da pessoa como um todo.

Nesta proposta de atendimento fomos convidados (supervisora e estagiários) a mostrar o que poderíamos fazer e inevitavelmente tivemos que nos lançar ao encontro do outro. A experiência clínica sob a fundamentação fenomenológico-existencial nos fez refletir a respeito da importância da qualidade do encontro entre supervisora e estagiários-terapeutas. Há de se considerar que os desafios foram imensos já que as solicitações provindas, em sua maioria, se fundamentaram em condições existenciais inesperadas e inóspitas, em especial, considerando o cenário que se estabeleceu.

Acreditamos que o supervisor com base fenomenológico-existencial tem como propósito auxiliar e acompanhar o terapeuta iniciante na vivência das atitudes terapêuticas para a construção da relação terapêutica. Portanto, durante a supervisões clínicas foi preciso fundamentar e ressaltar que o mais importante durante os atendimentos era oferecer um espaço de escuta e acolhimento. E, desse modo, durante as supervisões foi oferecido aos alunos um espaço no qual eles também pudessem ser acolhidos e escutados em seus temores e receios mediante ao novo que se desvelava em suas vidas. Na medida do possível a atitude fenomenológica serviu como parâmetro para que houvesse a suspensão de quaisquer explicações a priori para só depois construir algumas interlocuções com pressupostos teóricos/técnicos o que possibilitou um espaço de compreensão do conhecimento vivencial para a construção, desconstrução ou ainda reconstrução de significados.

Pode-se afirmar que a tarefa foi, no mínimo, difícil e requereu articulação entre saberes teóricos e características especiais e habilidades que permitiram um bom desvelar do processo terapêutico. Dentro desta linha de pensamento, compreendemos que qualquer estagiário-terapeuta que se lança para este inusitado, se depara com seus medos e inseguranças, o que parece ser absolutamente natural, pois é o momento referente ao viver da sua formação enquanto futuro psicólogo clínico.

Compreende-se que a experiência vivida enquanto supervisoras durante as discussões dos casos clínicos permitiu descrever uma primeira sensação que diz respeito justamente à postura crítica/reflexiva diante de todo o aprendizado no decorrer da vida acadêmica. Tal aprendizado não significou um rompimento com as abordagens tradicionais, mas sim a abertura à possibilidade de flexibilizar o olhar para que assim houvesse uma desconstrução e reconstrução de ideias, possibilitando que juntamente com os alunos fossem construídos outros espaços do conhecimento, mas respeitando o campo das intensidades e das vivências trazidas para as discussões por compreender que o vir-a-ser de cada pessoa com a qual nos encontrarmos estará em constante e inacabado processo de transformação.

Pode-se apontar que vulnerabilidade social esteve presente em grande parte das queixas relatadas pelos pacientes. Por meio das orientações pode-se mencionar que os estagiários adotaram posturas terapêuticas que contribuíram para que houvesse uma contemplação vivencial a respeito das questões trazidas. Há de se considerar que os encontros terapêuticos foram pautados num campo de afetação no qual decorreram trocas afetivas dotadas de sentidos e significados. E, portanto, tal como aponta Morato (2009), foi preciso estar disponível para compreender o outro, por meio da afetação de percepções, sentimentos, interpretações, mudanças, escolhas e decisões mostradas pelos pacientes. O plantonista se abre ao seu próprio experienciar como via de interpretação compreensiva transcendendo aos saberes teórico-práticos.

As vivências testemunhadas nos encontros entre estagiários e pacientes no percurso do Plantão Psicológico seguem desveladas e reveladas nas apreensões descritas.

1.3 O desvelar dos encontros on-line na proposta do plantão psicológico

De modo geral, as falas se mostraram angustiantes e sofridas e havia pedidos desesperados de ajudas bem como a espera de uma solução mágica para os problemas. Nesse tecer de experiências se quebravam as expectativas do plantonista, o que chegava era sempre algo que não se imaginava, por vezes um silêncio em lágrimas dolorosas e marcantes, por vezes uma fala interrupta e agonizante ou ainda, uma fala sem coesão ou um desarranjo de nexos, mas quase sempre, apenas ouvir era o que bastava.

Cada um com a sua história de vida contendo elementos que se articulavam entre si, sem perder, no entanto, a singularidade inerente à cada história. Entretanto, compreendemos que mesmo semelhantes em mais de uma história, a percepção dos sentidos presentes nestes elementos, varia de modo considerável em cada narração. Enquanto um dos pacientes almejava manter distância dos familiares por medo de ser contaminado com o vírus, outro desejava uma aproximação, que às vezes não ocorria pelo medo dos familiares em contrair o vírus. Por outro lado, um paciente nem sequer cogitava manter-se isolado por acreditar que tudo era invenção das indústrias farmacêuticas. São percepções distintas a um mesmo suposto fenômeno, que atingiu todos os pacientes deste rol de indivíduos que imersos em um mundo que se mostrava inóspito e caótico.

Percepções que se presentificaram na narrativa do estagiário-terapeuta a respeito de um dos atendimentos. “R. uma estudante de medicina contou que estava vivendo intensamente a vida e que não se cuidava, não usava máscaras e que estava tendo vários relacionamentos amorosos. Reafirmou que apesar das restrições impostas não tinha mudado nada sua rotina e que morava com os pais já idosos” (informação verbal). Foi necessário realizar uma intervenção diretiva ao convidá-la a refletir a respeito do cenário da doença, bem como sobre sua conduta de responsabilidade para com ela e para com seus pais idosos.

Os fatos narrados acima são apenas pequenas mostras do que se constituíram os encontros terapêuticos na proposta do Plantão Psicológico on-line. Compreendemos que foi uma experiência que deixaram marcas nas pessoas que buscaram os atendimentos bem como nos estagiários que lá estiveram para cumprir o estágio obrigatório. E, obviamente podemos afirmar que ao supervisionar alguns casos clínicos fomos fortemente tocadas, sim tocadas pelos fatos narrados pelos estagiários a respeito daquelas vidas e, também pelas solicitações advindas dos estagiários para que os ensinassem a ter o melhor manejo terapêutico, a pronunciarem as melhores palavras para as situações que apareciam. Em uma das supervisões, a estagiária compartilhou que havia realizado um atendimento bastante difícil já que a todo o momento o paciente mencionava uma tristeza profunda afirmando que a vida não lhe conferia mais sentido, ela havia perdido familiares para a Covid. Após uma hora de atendimento a paciente agradeceu a estagiária mencionando que se sentiu aliviada pelo fato de ter sido escutada e acolhida em sua dor.

Devemos afirmar que os estagiários ao apresentarem durante as supervisões aspectos clínicos dos encontros acontecidos, os mesmos se presentificavam e éramos afetadas e buscávamos compreender a afetação que tomava conta para que só assim pudéssemos fundamentar uma compreensão nos pressupostos teóricos e técnicos.

A experiência vivida nos convida a refletir que a psicologia, em especial a psicologia fenomenológico-existencial, tem por dever moral, social e ético, por seu caráter humanista, dirigir sua visada ao momento de nossa história em que se escancarou a fragilidade da condição humana. O acolhimento e a escuta diferenciada que foram oferecidas puderam proporcionar o desvelamento de outros sentidos e outras possibilidades para àqueles que, imersos na angústia e no temor no profundo poço das dificuldades existenciais puderam vislumbrar, mesmo que ínfima e tênue, uma luz em meio ao negrume do abismo que se encontravam.

Em outra experiência clínica a estagiária-terapeuta mencionou que havia realizado um atendimento difícil, pois não havia encontrado abertura para ajudar a paciente a refletir sobre sua condição humana em meio a restrição tão fortemente vivenciada por conta do isolamento social, chegando a questionar-se estava fazendo a diferença na vida daquela mulher. Contudo, de acordo com a aluna se sentiu confortável, ao se lembrar das supervisões e compreendeu que de alguma forma havia sido testemunha fenomenológica do sofrimento daquela mulher. Portanto, havia indubitavelmente feito a diferença ao se encontrar com aquela existência.

Em outro encontro terapêutico on-line, uma mulher, aparentando 55 anos, cumprimentou o estagiário em prantos e se manteve assim durante mais ou menos 20 minutos. O estagiário aguardou alguns minutos até que a mulher se acalmasse e realizou a seguinte intervenção: “Vejo e sinto o quanto a senhora está sofrendo, e quero lhe dizer que estou aqui para escutá-la e acolhê-la em seu sofrimento. Ainda não sei o que aconteceu, mas posso imaginar e sentir o quanto a situação está difícil”. Nesse momento, a paciente mencionou em prantos “Estou desesperada faz quatro dias que perdi meu filho, ele tinha apenas trinta anos de idade, estava bem até que de repente começou a dizer que sentia dificuldade para respirar (...). Essa doença maldita a Covid-19 que vem pegando todo mundo nessa cidade. O pior é que a situação se agravou e ele faleceu” (informação verbal).

Os encontros terapêuticos acontecidos apontam para a necessidade de as pessoas terem um espaço onde possam ser ouvidas em suas aflições e nos inesperados da nossa existência. Portanto, a importância de se ter um espaço de apoio psicológico para lidar com as situações de crises tornou-se imprescindível.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Destaca-se que a intenção ao produzir este capítulo é oferecer um espaço de reflexão para as questões e os desafios que encontramos e iremos encontrar no decorrer de nossa prática profissional. Será preciso estar atentos ao nosso fazer psicológico que se configura em novas áreas de atuação, dentre estas, se encontra o Plantão Psicológico.

Por todo o exposto, compreende-se que a postura que devemos adotar diante do Plantão Psicológico é a de acolhimento e escuta como alicerces de atuação, dando espaço para que o outro se aproprie do encontro, pois sabemos que estas duas atitudes terapêuticas já configuram, por si só, enquanto condição de transformação e ressignificação. A intenção é a de estarmos abertos para que os fenômenos se mostrem, sem ansiedades ou precipitações, respeitando e acolhendo o outro que já traz suas próprias angústias, ansiedades e expectativas de que alguém lhe proporcione alguma resposta ou solução para suas dificuldades.

Ressalta-se que estar de frente com a prática psicológica do Plantão Psicológico ancorado na perspectiva fenomenológico-existencial é ter consciência de que não temos o controle sobre o outro, pois é ele quem nos dará as coordenadas de como experiencia sua condição atual de existência. Estar de frente com o Plantão Psicológico é desenvolver habilidades de empatia e manejo terapêutico com situações diversas, engendrando em nós mesmos preocupação constante em estarmos inteiros e presentes no contato relacional, acolhendo o outro da forma como se mostra. Estar de frente com a prática do Plantão Psicológico é compreender que também somos seres indo ao encontro, é trabalhar nossas ansiedades e nossa condição de limitação.

E, finalmente, realizar o Plantão Psicológico é fazer da prática da psicologia a arte do encontro. Para Andrade (2012) a importância de ir ao encontro do fenômeno que se apresenta, promovendo um encontro, através de um fazer artesanal atribuindo significado para tudo que é vivenciado no encontro, atribuindo um caráter artesanal, a narrativa é o modo de cada ser conectar-se a sua experiência tornando possível a ressignificação.

Desse modo, constatou-se que os estagiários puderam aproximar-se daqueles que desejaram ser ouvidos em suas dificuldades existenciais. E, também ampliar o olhar sobre as diferentes maneiras de compreender os fatos da vida e as vivências humanas, aprimorar atitudes que alguns chamam de postura terapêutica, sendo um momento que permite dar oportunidades para aplicação de técnicas e teorias, exercitando, sobretudo o acolhimento incondicional as demandas do outro. Diante desta experiência acreditamos que ocorrerá um criar e um recriar, a ressignificação tão necessária sempre com a possibilidade de uma transformação diante do encontro com o outro.

A experiência vivida indubitavelmente escancarou que não há como não nos afetarmos com os encontros de todos os dias. Essa condição existencial, em especial, de ser supervisoras tem nos tocado profundamente. Espantamo-nos e encantamo-nos com cada encontro e fomos tomadas por várias questões e implicações com as possibilidades e não possibilidades da nossa condição existencial.

A experiência clínica na modalidade terapêutica Plantão Psicológico nos ofereceu a oportunidade de deparar com reflexões profundas surgidas da atuação clínica dos estagiários, dentre estas, cita-se às considerações de uma das estagiárias que apontou: “O plantão psicológico on-line foi uma experiência inovadora por não ter um setting definido. Quando se rompe com o modelo de clínica tradicional, esta modalidade de atendimento proporciona entrar no campo das afetações, tocar e ser tocado pelas vicissitudes humanas e descobrir a potência terapêutica da escuta”.

Finalizando, afirma-se que a prática psicológica estará inevitavelmente pautada na esperança em uma clínica psicológica para além da prática tradicional. Acredita-se que é uma questão de querer, de acreditar, de buscar e de se enveredar. É só olhar, buscar com os olhos do coração, da alma e da intuição. É um arriscar-se para vir-a-ser, para se constituir.

Conclui-se, assim, a partir da literatura e baseado nesta experiência que o plantão psicológico online possibilitou capacidade de escrita e articulação teórica, e após alguns meses, os estagiários sinalizaram uma maior maturidade durante os atendimentos, com mais conhecimento teórico e melhor abordagem, embora também tenham sinalizado a falta da vivência presencial nos atendimentos. A necessidade de uma formação ampliada a partir deste contexto social, com pandemia e crises econômicas e políticas, possibilitou aos alunos compreender que saúde se faz a partir do entendimento de que as pessoas precisam ter acesso as necessidades básicas como alimentação, acesso a tratamento em saúde, saneamento básico, moradia, educação, inserção no mercado de trabalho e convivência social, fortalecendo assim a ideia de transdisciplinaridade e compreensão de que saúde se traduz em um bem estar físico, psíquico, social, político, econômico e ecológico.

 

REFERÊNCIAS

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MORATO, H. T. P.; BARRETO; C. L. B. T.; NUNES, A. P. (coord.) Aconselhamento psicológico numa perspectiva fenomenológica existencial: uma introdução. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2009.

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