ISSN: 1679-4427 | On-line: 1984-980X

Saúde mental da população preta: origens e busca de possíveis soluções

Rogério Lazur

DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/1679-4427.v16n29.0002

Ativista negro, diretor e apresentador do canal MINAS NEGRAS GERAIS, no YoutubeTM. Professor de idiomas e tradutor. Endereço eletrônico: minasnegrasgerais@gmail.com

 

Negro drama…Cabelo crespo e a pele escura, a ferida, a chaga, à procura da cura”...

Me permito aqui iniciar este artigo com este brevíssimo trecho de uma das letras mais icônicas do quarteto de Rap mais bombástico do Brasil, os Racionais MCs. De fato, a procura da cura vem acompanhando a cultura preta brasileira desde os tempos da diáspora africana, durante a era colonial. Apesar da escravização de milhões de pretos e pretas por todos os rincões deste Brasil, devemos nos lembrar de que, anterior a esse período nefasto e nauseabundo, haviam reinos negros em África e, portanto, éramos filhos de reis e rainhas espalhados por um vasto continente além-mar, com língua e cultura próprias. Este capítulo da história de nossa tão afamada “sociedade moderna” ainda traz marcas profundas até mesmo para a nossa contemporaneidade. Imaginemos uma tábua de madeira em perfeitas condições. Uma vez em mãos, você recebe a ordem de pregar um prego por dia durante 365 dias ininterruptos. Passados 12 meses, a ordem é para que todos os pregos sejam retirados. A tábua ainda existe, assim como as marcas profundas de todos os 365 pregos.

Esta grotesca analogia simboliza as marcas profundas carregadas pela população preta brasileira há mais de 4 séculos. Nossos ancestrais foram sequestrados em suas terras, arrastados até os portos negreiros, conduzidos a contragosto em navios tumbeiros (ou negreiros). Muitos não resistiam e ficavam doentes, consequentemente tornando-se “mercadoria inválida” para os traficantes negreiros e eram jogados ao mar, onde famintos tubarões já os esperavam… Os mais fortes, ainda que acorrentados e vivendo em condições sub humanas, conseguiam alcançar os portos de destino, como o Cais do Valongo, na Cidade do Rio de Janeiro. Lá, mais uma vez, eram tratados como mercadoria alfandegária, eram submetidos a quarentenas até o dia do grande leilão em praça pública, tinham seus corpos lustrados com sebo de porco para que pudessem luzir aos olhos dos possíveis novos donatários e assim, dando início a outra jornada: a viagem para outros sertões do país, como o interior de MG, por exemplo, caminhando cerca de 500 km a pé, tendo pescoço, mãos e pés acorrentados, debaixo de sol e chuva.

Voltando para nossos dias atuais, a população negra ainda encontra obstáculos ainda enraizados em um racismo estrutural sem precedentes. Segundo Gabriella da Cruz Santos e Éllen Cristina Ricci, da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), “É importante destacar que existe uma peculiaridade em ser negro no Brasil. Vivemos em um país em que, apesar de sua maioria ser constituída por pessoas negras e/ou miscigenadas, não se reconhece a existência do racismo. Ou, quando é feito, é um racismo sem racistas, sempre questionando a necessidade de se discutir a respeito”. Ainda acrescentam que “No Brasil não existem dados precisos sobre a prevalência dos transtornos mentais na população negra. Embora hoje possa ser observada a presença do quesito raça/cor em vários sistemas nacionais de informação em saúde, a análise desses dados ainda é incompleta”. Por sua vez, Silva ainda nos acrescenta “é notável o aumento da exposição ao sofrimento psíquico que a população negra sofre devido à reestruturação do setor produtivo e à consequente diminuição do emprego, às precárias condições de vida, à discriminação racial, entre outros fatores, que podem gerar manifestações como ansiedade, ataques de pânico, depressão, ataques de raiva violenta e aparentemente não provocada, depressão, hipertensão arterial, úlcera gástrica, alcoolismo, entre outras”.

Estes fatos vêm se corroborando cada vez mais, sobretudo nos últimos seis anos, uma vez que o país esteve nas mãos de governantes que não tinham nenhum princípio nem tampouco compromisso com a cidadania. O que se esperar de um chefe do poder executivo que mede o corpo negro por “arrobas”? Segundo Costa e Assis (2015), em “Reflexões epistêmicas sobre a Terapia Ocupacional no campo da Saúde Mental, “O racismo estruturado nas relações sociais faz isto: tende a anular qualquer potência do sujeito negro sobre sua existência real, sua ancestralidade, sobre sua criatividade de existir, sentir prazer e legitimar sua identidade racial”.

Ainda nesta linha de pensamento, diz C.F.P. que “a elite nacional buscou continuar a dominar psiquicamente o negro. Era preciso que o negro se embranquecesse no corpo e na mente. Esse processo era muito mais do que a necessidade de se criar biologicamente interme-diários entre pretos e brancos – os pardos; significava mudanças comportamentais e culturais por parte dos negros, a fim de adotar normas, atitudes e valores associados ao universo branco com o intuito de ser reconhecido como tendo uma identidade racial positiva”.

 

DISCUSSÃO

É de suma importância ressaltar a necessidade da implementação de políticas públicas que possibilitem a criação e sustentação de programas terapêuticos para a população negra. E mais ainda, profissionais negros que atendam a uma população negra, por questões de identidade e representatividade étnico-racial.

Segundo explica Igor Leonardo, cofundador da AfroSaúde, uma startup cujo objetivo é diminuir a distância entre profissionais de saúde negros e pacientes, “Profissionais negros existem, mas são invisibilizados no mercado de trabalho”. E acrescenta, “Quando a gente chega em um hospital, encontramos muitos negros, mas raramente ocupando cargos de liderança. Se você buscar um médico em plataformas online, a maioria dos resultados será de médicos brancos. Tanto na assistência privada quanto na pública, os profissionais negros enfrentam muitos obstáculos, o que se reflete na dificuldade em encontrá-los”, afirma. De acordo com Igor, “há resistência da população em reconhecer e até mesmo aceitar que aquela pessoa negra de jaleco é um profissional da saúde. Os pacientes acham que é um técnico, um atendente ou um estagiário, mas nunca o médico responsável pela assistência”.

Dados apontam que, no país, o suicídio é a terceira principal causa externa de mortes. Uma pesquisa do Ministério da Saúde, publicada em 2018, revelou que jovens negros do sexo masculino e idades entre 10 e 29 anos são os que encaram o maior risco de morrer por suicídio. A probabilidade de suicídio nesse grupo é 45% maior do que entre jovens brancos na mesma faixa etária. Sabemos que esse risco maior está relacionado ao sofrimento psíquico causado pelo racismo estrutural. Ele reforça a necessidade de discutirmos os efeitos do racismo na saúde mental da população negra. Inclusive porque o suicídio é a ponta do iceberg. Ainda segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), “o Brasil é o país com a maior prevalência de ansiedade no mundo e o número 2 nas Américas quando o tema é depressão. O racismo também influencia esses rankings. Situações de discriminação, sejam elas explícitas sejam sutis, produzem estresse e traumas. E esses traumas, acumulados ou vivenciados de maneira mais intensa, podem desencadear, no longo prazo, transtornos psicológicos”.

Um outro aspecto de altíssima relevância a ser abordado tem relação com o papel social dos terreiros de religiões de matrizes africanas espalhados pelos quatro cantos do Brasil. Dentre as várias vertentes, a Umbanda e o Candomblé vêm fazendo um trabalho de excelência juntamente com uma considerável parcela da população de baixa renda, sobretudo a população negra, que, segundo dados do IBGE, ultrapassa a metade da população brasileira.

Em sua tese “Macumbizando a Psicologia: o que as religiões de matriz africana têm a transmitir à Psicologia (2021)”, a psicóloga Marina Dal Magro Medeiros, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), nos apresenta algumas definições acerca desse trabalho realizado pelos terreiros. Marina diz que “O diferencial em relação a alguns dos templos tradicionais, é que não se vai ao terreiro para confessar suas culpas e pedir perdão a Deus. Lá se vai para receber acolhimento, partilhar suas culpas, alegrias, dúvidas e problemas com seres superiores e receber um afago, um afeto, um conselho de quem se encontra em um patamar espiritual elevado e das divindades. Marina afirma ainda que “O terreiro muitas vezes representa o único lugar de acolhimento e afeto para pessoas tratadas com indiferença e excluídas pela sociedade.” Segundo Alves & Seminotti (2009),“a aproximação desses espaços religiosos como campos de acolhimento emocional e de transmissão de práticas de cura e de saúde já vêm sendo apontados na literatura especializada, que destaca a Umbanda como uma religião ligada ao assistencialismo e à solidariedade como uma de suas marcas constitutivas. E complementa ainda que “Embora haja um leque variado de expressão dessa religião em festas e demais rituais, um dos seus principais pilares é a caridade, representada pelos atendimentos espirituais ofertados aos consulentes por meio de médiuns que incorporam espíritos (como pretos-velhos, caboclos, baianos, exus e pombagiras) a partir do transe de possessão. Fabio Scorsolini-Comin, em seu artigo “Atenção psicológica e umbanda: Experiência de cuidado e acolhimento em saúde mental (2014), complementa esta ideia, afirmando que “a etnopsicologia destaca a necessidade de se compreender como determinadas práticas culturais são construídas, transmitidas e perpetuadas no psiquismo de seus membros, sendo que a ciência psicológica deve sempre conhecer a fundo as regularidades sociais, as formas de socialização, cuidado e transmissão de saberes em cada comunidade para que possa tecer conclusões que justamente incorporem esses elementos na compreensão de uma dada comunidade ou de um grupo de pessoas”.

Concluindo, apesar de inúmeros livros e artigos sobre a questão da saúde mental da população preta e os estudos de suas origens, a maioria da população, que é afro brasileira ainda é marginalizada e posta à prova até os dias atuais, em atos oriundos do racismo estrutural e institucional entranhado em todos os pilares de nossa sociedade. Contudo, é notória a ascensão (mesmo que a passos lentos) de formas de expressão da população preta, seja na política, na cultura e na área da saúde, com o objetivo da ocupação de todos os lugares, já garantidos pela Constituição Brasileira, em conjunto com a Declaração dos Direitos Humanos. Faz-se mister a criação de políticas públicas que garantam o bem-estar de nosso povo preto, que por motivos óbvios, ainda é carente de cuidado e atenção especializados.

Ser preto no Brasil é uma missão de fé. E a fé necessita de mente sadia.

 

REFERÊNCIAS

REVISTA DE PSICOLOGIA DA UNESP, 19 (especial), 2020.

SITE AFROSAÚDE: https://afrosaude.com.br/home

MEDEIROS, Marina dal Magro. Macumbizando a Psicologia: o que as religiões de matriz africana têm a transmitir à Psicologia, 2021.

COMIN, Fabio Scorsolini. 2014, Atenção psicológica e umbanda: experiência de cuidado e acolhimento em saúde mental. Universidade Federal do Triângulo Mineiro, Uberaba, 2014.

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